O Dia Internacional das Prostitutas remete aos acontecimentos de 2 de junho de 1975, quando cerca de 150 prostitutas ocuparam a Igreja Saint-Nizier, em Lyon, na França, denunciando violência policial, perseguições e condições precárias de trabalho. A ocupação tornou-se um marco internacional da luta pelos direitos das trabalhadoras sexuais.
No Brasil, a data passou a ganhar visibilidade a partir do projeto "Sem Vergonha, Garota, Você Tem Profissão", resultado de uma articulação entre o movimento brasileiro de prostitutas e o Ministério da Saúde. Era o ano de 2002, e a iniciativa reuniu um conjunto de ações fundamentais para impulsionar o reconhecimento da categoria e fortalecer a parceria entre movimento social e poder público.

A campanha tinha múltiplos objetivos. No campo da cidadania, buscava combater o estigma social e fortalecer a autoestima das profissionais do sexo. Na área da saúde, pretendia ampliar o diálogo sobre prevenção às infecções sexualmente transmissíveis. Entre suas principais conquistas políticas esteve o reconhecimento do trabalho sexual como ocupação na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), marco histórico para o movimento. A iniciativa também produziu materiais educativos, pesquisas com lideranças e um jingle interpretado pelo cantor Reginaldo Rossi, referência da música brega que compõe a paisagem sonora de muitos bares, cabarés e espaços de sociabilidade vinculados ao trabalho sexual.
Para além dos avanços institucionais, o projeto teve papel decisivo na expansão organizativa do movimento em diferentes regiões do país. Em minha dissertação de mestrado, denominei esse processo de "interiorização para a formação de associações", uma estratégia que buscava estimular a criação de pelo menos uma organização de trabalhadoras sexuais em cada estado brasileiro. Para isso, era necessário identificar e capacitar novas lideranças, fortalecendo o protagonismo político, a sustentabilidade do movimento e suas capacidades de incidência política (advocacy) (Bonomi, 2019).
A estratégia envolvia intercâmbios entre associações de diferentes regiões, que percorriam cidades e estados mapeando locais de exercício do trabalho sexual e articulando novas redes de mobilização. Foi um período particularmente promissor, que contribuiu para a consolidação de quase vinte associações em atividade nos seus territórios, ampliando a organização coletiva e a capacidade de diálogo com instituições públicas em defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais.
Em 2013, em meio a tensões entre o movimento organizado e o Ministério da Saúde, o Dia Internacional das Prostitutas tornou-se novamente um marco de disputa política. Durante um encontro de lideranças realizado em João Pessoa (PB), foi elaborada uma campanha destinada a reafirmar a parceria entre o movimento e o Ministério. Como parte das atividades, as participantes foram convidadas a escrever frases afirmativas sobre suas trajetórias e experiências com o trabalho sexual. Uma das lideranças escreveu a frase "Sou feliz sendo prostituta", que foi fotografada e divulgada como peça da campanha.
Pouco depois, o material foi retirado do ar por decisão do então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, sob a justificativa de que a mensagem não era compatível com a comunicação institucional do órgão. A censura da campanha provocou forte reação do movimento. Em resposta, diversas trabalhadoras sexuais passaram a reproduzir a frase em fotografias e manifestações públicas, transformando o slogan em símbolo da resistência ao estigma e da defesa da autonomia das prostitutas na construção de suas próprias narrativas.
Esse episódio, entretanto, não enfraqueceu a capacidade de mobilização do movimento. Pelo contrário, ao longo da década de 2010, as celebrações do Dia Internacional das Prostitutas passaram a integrar de forma mais sistemática o calendário político das associações brasileiras. Influenciadas também pelas articulações com organizações internacionais, como a Red Umbrella Fund e a RedTraSex, diversas entidades passaram a organizar eventos anuais em seus territórios.
Um exemplo é a atuação da Associação Mulheres Guerreiras Unidas pelo Respeito, em Campinas (SP), que há mais de uma década realiza atividades em torno da data, reunindo diferentes segmentos dos movimentos sociais da cidade. Entre os participantes estão organizações ligadas ao movimento sindical, à saúde, à moradia e aos direitos das mulheres. Os debates costumam abordar pautas históricas do movimento, como a regulamentação do trabalho sexual, o acesso a serviços públicos e a garantia de atendimento nas Delegacias da Mulher.

Também são discutidas situações cotidianas enfrentadas pelas trabalhadoras sexuais, incluindo conflitos com clientes, violência verbal e física e o chamado "calote" — quando o cliente se recusa a pagar pelo serviço previamente acordado. Essas discussões evidenciam como a ausência de reconhecimento pleno da atividade produz obstáculos concretos para o acesso à justiça e à proteção institucional.
Além dos debates políticos, muitas associações promovem ações de cuidado e saúde. A Associação das Prostitutas da Paraíba (APROS-PB), por exemplo, organiza atividades como testagens para ISTs, exames preventivos, cafés da manhã comunitários e apresentações culturais voltadas às profissionais do sexo, como o teatro PROSação.
Outra iniciativa frequentemente presente nas celebrações é o desfile da DASPU, marca criada pela ONG Davida sob a liderança de Gabriela Leite. Com peças que combinam humor, irreverência e crítica social, os desfiles ocupam ruas e espaços públicos, transformando a moda em instrumento de ativismo político. Ao brincar com palavras, símbolos e estereótipos associados à prostituição, a DASPU constrói uma linguagem que articula arte, resistência e reivindicação de direitos.

Este ano, o Dia Internacional das Prostitutas contou com atividades presenciais e digitais, realizadas por meio dos perfis das associações e de suas respectivas redes sociais. No entanto, gostaria de destacar uma iniciativa inédita: a organização de trabalhadoras plataformizadas. O encontro foi realizado na cidade de São Paulo e reuniu pessoas que atuam em diferentes segmentos do trabalho sexual digital, incluindo produtoras de conteúdo adulto independente, camgirls e profissionais que transitam entre as plataformas digitais, os programas presenciais e as casas de massagem. O evento também contou com a participação de lideranças do coletivo Clã das Lobas, de Belo Horizonte.
Historicamente, São Paulo foi uma das poucas capitais brasileiras que não consolidou uma associação vinculada ao movimento brasileiro de prostitutas, cuja principal bandeira é a regulamentação da profissão. Em contrapartida, destacou-se a atuação da Associação Mulheres da Luz, que adota uma perspectiva abolicionista e defende a superação do trabalho sexual. Não se trata aqui de estabelecer uma oposição entre essas diferentes formas de organização, mas de observar quais correntes de ativismo ganharam maior visibilidade ao longo dos anos em uma das maiores cidades da América Latina.
Nesse contexto, o encontro organizado por trabalhadoras do mercado digital parece inaugurar uma nova etapa do ativismo ligado ao trabalho sexual. Svetlanna, trabalhadora sexual há nove anos, relatou que a iniciativa surgiu da necessidade de dar visibilidade à multiplicidade de experiências presentes no setor. Para isso, o grupo procurou o espaço Lovenox, conhecido por sediar eventos ligados às práticas fetichistas e por apoiar iniciativas voltadas à comunidade.
Buscando romper com o formato tradicional de mesas e palestras, as organizadoras optaram por uma grande roda de conversa. A proposta era criar um ambiente de troca, no qual as participantes pudessem se conhecer, compartilhar trajetórias e identificar desafios comuns. A partir dessas discussões, foram sistematizadas demandas, preocupações e interesses relacionados à construção de formas coletivas de organização. Entre os temas debatidos estava a necessidade de ampliar a representação política dessas trabalhadoras em um momento em que o Brasil vive intensas disputas sobre a regulação das plataformas digitais e das redes sociais.
Uma frase de Svetlanna marcou nossa conversa. Ao resumir a experiência do encontro, ela afirmou: “A centralidade foi discutir a identidade como sujeito político”. A observação chamou minha atenção porque evidencia uma continuidade histórica importante. Mesmo após quase quatro décadas da formação da Rede Brasileira de Prostitutas, e apesar das profundas transformações provocadas pelas plataformas digitais, permanece atual uma reivindicação que acompanha o movimento desde seus primórdios: o reconhecimento das trabalhadoras sexuais como sujeitas de direitos.
Ao mesmo tempo, o encontro revela algo novo. A plataformização do trabalho sexual não produziu apenas novas formas de geração de renda, circulação econômica e organização do mercado. Ela também tem produzido novos sujeitos políticos. Pessoas que ingressaram no setor por meio das plataformas, que transitam entre o presencial e o digital e que enfrentam desafios específicos relacionados aos algoritmos, às políticas de moderação, às plataformas de pagamento, ao banimento de contas e à gestão permanente da própria visibilidade. Essas experiências produzem demandas particulares, mas também reforçam reivindicações históricas do movimento.
As formas de organização mudam; os mercados se transformam; as tecnologias alteram os modos de produção e circulação do trabalho sexual. Novas categorias profissionais surgem e novas pautas passam a compor a agenda política. Entretanto, um elemento permanece constante: a necessidade de enfrentar o estigma. É ele que continua limitando o acesso a direitos, dificultando o reconhecimento social e impondo barreiras à organização coletiva.
Nesse sentido, o encontro realizado em São Paulo demonstra que, embora as formas do trabalho sexual tenham se transformado profundamente nas últimas décadas, algumas questões permanecem abertas. A luta pelo reconhecimento, pela legitimidade de suas experiências e pelo direito de participar das decisões que afetam suas vidas continua sendo uma demanda central. Hoje, quando as fronteiras entre o presencial e o digital se tornam cada vez mais difusas e contribuem para a consolidação de um novo regime de trabalho sexual, a organização política segue sendo uma ferramenta fundamental para enfrentar desigualdades e disputar direitos.