Brasil, um país que goza e mata

Jun 3, 2026
Brasil, um país que goza e mata
Photo by Kyle / Unsplash

O desejo e a aversão por travestis como retrato de uma sociedade doente

Entretenimento ou caixão?

A primeira vez que me deparei com a palavra “travesti” foi no contexto de uma discussão. Na televisão, durante o programa do falecido Sílvio Santos, as então intituladas transformistas eram feitas de chacota, para uma plateia inteira rir, enquanto apresentavam práticas artísticas muito bem elaboradas. Sílvio, que de bom moço não havia nada, realizava perguntas desconfortáveis, mas que evidenciavam sem muito pudor o interesse mórbido da audiência: elas têm pau ou buceta?

Ao meu lado, sentavam-se meus avós maternos, que assistiam ao evento movidos por risadas e um pingo de horror na face. Meu avô, que de bom moço também não havia nada, dizia em alta e boa voz: “Um mulherão desses… aí… pena que é um homem!”. Em outras ocasiões, não era muito raro ouvir uma das minhas tias soltar em tom jocoso, irônico, em plena tentativa de ridicularizar meu avô: “Nossa, um mulherão desses, hein, pai? Cê tava feito!”. Afinal, você sabe bem, aquilo não é uma mulher de verdade.

Durante a minha infância, que se situou em meados dos anos 2000, essas pequenas dosagens de transfobia moldaram, para mim, o que significava ser uma travesti. A travesti era uma figura quase mística, exótica, esculpida às mãos para honrar o desejo cismasculino e prover risadas aos domingos em família. Motivo de chacota, fetiche, volúpia e, em especial, descarte. Não havia dúvida; quando o termo “travesti” aparecia em evidência na mídia, só existiam duas opções:

1. ela estava servindo como entretenimento.
2. ela estava morta.

Dois números que quase ninguém coloca na mesma frase

Embora aparentemente paradoxal, a correlação entre um desejo proibido e uma violência extrema veiculada contra corpos trans nunca foi mera coincidência. Afinal, o Brasil segue há quase duas décadas como país líder de homicídios trans no mundo inteiro. Com nenhuma surpresa, o país figura também entre os maiores consumidores de pornografia trans do globo — o 2º em proporção de buscas trans em relação ao consumo geral de pornografia, posição que sustenta desde 2016. Prova evidente disso é que, de acordo com o último relatório do PornHub, “punheta trans” foi a segunda pesquisa com maior crescimento no país, com um aumento de 488%, enquanto a categoria “Transgender” figurou como a 3ª mais assistida por brasileiros.

Esse é um panorama que não se resume ao Brasil em si, apontando para um crescimento global no consumo de pornografia trans — a 2ª categoria mais vista em 2025 —, além de um aumento considerável no consumo de categorias correlatas a vivências trans, em especial às transfemininas. É o que ocorre com a categoria “femboy”, que se tornou o 10º termo mais buscado mundialmente no último ano, entrando pela primeira vez no top 10 global.

Com essa informação em mente, é válido abrir umas aspas para enunciar uma característica importante de tais dados: embora sejam categorias distintas, femboy e trans comumente se sobrepõem enquanto identidades. Isso implica que, na prática, muitas pessoas transfemininas se identificam com o termo ou o utilizam por ser mais visível nas plataformas de conteúdo adulto, enquanto a maioria dos femboys são lidos socialmente como transfemininos, qualquer que seja a sua autodeterminação. Ou seja, o crescimento do consumo de conteúdo associado à transgeneridade não se limita apenas ao rótulo trans, sendo ainda maior do que os números isolados indicam.

Ao mesmo tempo, os direitos humanos de pessoas trans estão sendo escrutinados politicamente em todo o globo, em especial no Ocidente, sob o pretexto de um pânico moral muito bem subscrito no imaginário social — como bem apontou a PlayBoy em uma matéria recente

Exemplo nítido dessa realidade é a administração do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, logo nos primeiros dias do segundo mandato, assinou uma série de decretos que reconhecem, a nível federal, a existência de apenas dois gêneros, vetando a participação de pessoas trans do exército e cortando o financiamento federal para cuidados de afirmação de gênero. Essas decisões afetaram não apenas habitantes do país, como também o passaporte de estrangeiros — caso que se fez visível com a denúncia da parlamentar travesti Érika Hilton, após ter o gênero definido como “masculino” no passaporte pela embaixada estadunidense.

Já no Reino Unido, a Suprema Corte decidiu em abril de 2025 que, na legislação britânica, “sexo” se referia explícita e unicamente à classificação biológica cisnormativa, invalidando de forma efetiva o reconhecimento legal da identidade de gênero — decisão que hoje se soma à proibição de bloqueadores hormonais para menores implementada após o controverso Relatório Cass.

No Brasil, o cenário não é diferente. Também em 2025, o Conselho Federal de Medicina aprovou a Resolução nº 2.427, que proíbe o uso de bloqueadores hormonais para crianças e adolescentes trans, elevando para 18 anos a idade mínima para início da hormonização e para 21 anos os procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero — um atraso evidente nas políticas de saúde pública que foi denunciado justificadamente pela ANTRA e pela ABGLT à Comissão Intraamericana de Direitos Humanos. 

Se a situação não estava ruim o suficiente, ela ainda pode piorar. Hoje, o Congresso Nacional concentra mais de 100 projetos de lei que visam atacar os direitos de crianças e jovens LGBTQIAPN+, enquanto o Ministério da Saúde segue com a política nacional de saúde trans engavetada. Isso, como supracitado, no país que encabeça um dos maiores mercados consumidores de pornografia trans e lidera, de forma nada paradoxal, os homicídios de pessoas trans há quase duas décadas.

Enquanto para a indústria pornográfica o aumento dos números de consumo possa soar positivo, para pessoas trans, diante de tal contexto político, esses dados evidenciam uma realidade muito cruel: somos meros produtos de consumo, feitos para descarte. Ao passo que tentam usurpar os direitos que garantem a nossa existência, também aumenta-se o interesse em nos tratar como objetos de entretenimento adulto, e não apenas.

A realidade é pior do que parece

Ainda mais devastadora é a verdade oculta por trás dos dados que ancoram os mapas de violência contra a população trans. Há lacunas formadas em cada uma dessas análises por um simples e evidente fator: a subnotificação. Não há nenhuma documentação oficial em terras brasileiras que seja capaz de definir, com materialidade, qual a quantidade de pessoas trans que habitam, hoje, ontem ou em qualquer outro momento da história, o nosso país. 

Para piorar, um apagamento substancial sobrepõe qualquer tentativa de expor a extensão da violência que corpos trans sofrem. Afinal, uma quantidade significativa de pessoas trans é sequer enterrada com o nome verdadeiro, reféns do egoísmo e da transfobia de parentes que não podem ser intitulados aqui como “família”. Muitas, são lembradas sob a lente de uma suposta homossexualidade, classificadas como um homem gay afeminado ou uma mulher lésbica masculinizada, desviantes da norma sexual. Outras, nem isso. No fim, elas não têm apenas as identidades apagadas, como também suas memórias. 

Além disso, há uma ausência por parte do mecanismo estatal no acolhimento apropriado de sobreviventes e no registro das vítimas. Tanto por uma falha de reconhecer tal população como vulnerável e ter espaços apropriados para escuta, quanto por não ter uma tipificação própria para homicídios contra pessoas trans motivados por ódio. 

Fora das tentativas precipitadas de alas conservadoras de invalidar ou minimizar tais dados, a raiz do problema se revela paralisante: há um genocídio silencioso em curso, com sangue trans sendo derramado diariamente pela mão da cisheterossexualidade, e os dados são insuficientes para compreender a extensão dessa chacina.

Diante de tal paradigma, uma pergunta perdura: como pode tanto ódio surgir a partir de um mero desejo?

Como desejo se torna violência

Não é mistério para ninguém que a maioria dos violentadores de pessoas trans — bem como ocorre com mulheres cis — são homens cisgêneros e heterossexuais. O ódio movimentado a partir da cisheteromasculinidade, em especial contra seus objetos de desejo, aponta para uma raiz problemática do desejo em si — e como ele se instaura dentro da nossa sociedade. 

É importante compreender que, por mais contraintuitivo que possa soar, desejo nenhum nasce no vácuo. Assim como outros fatores da subjetividade humana, ele é construído dentro de estruturas muito específicas de poder e articulado a partir de referenciais, experiências e demais influências psicossociais. Embora para as ciências psi a origem exata de um desejo ainda esteja aberta a longos debates, sabe-se que, sem dúvida, o mundo ao nosso redor influencia diretamente sua origem e permanência, além de como nos relacionamos com ele.

Aqui, é necessário abrir um parêntese: nem todo desejante de corpos trans é parte do problema em si, bem como nem toda violência contra pessoas trans parte apenas de desejantes. O problema, na realidade, é multifacetado e mora na estrutura social, que é sustentada por uma relação predatória com a transgeneridade e tal desejo — uma relação de culpa, nojo, vergonha, julgamento e ojeriza demasiada. A exotização que pessoas trans sofrem pela mídia brasileira, por exemplo, é um dos frutos fruto dessa relação deturpada, que apaga o sujeito e o transforma diretamente em objeto de consumo.

A cisgeneridade produz tal desejo e, ao mesmo passo, julga os desejantes. Quem nunca ouviu a famosa frase: “homem que gosta de travesti não é homem de verdade?”. Em nível social, aquele que demonstra desejo por pessoas trans, em especial pessoas transfemininas, perde a validade da sua masculinidade. Ele não é mais um homem. Agora, ele é um “corta para os dois lados”, um “viado”, um “baitola”.

Essa retórica parte de um pressuposto genitalista, que Gayle Rubin aponta com maestria em Thinking Sex ao argumentar que a sociedade ocidental organiza a sexualidade a partir de hierarquias rígidas. No topo, o sexo heterossexual, monogâmico, reprodutivo; nas margens, tudo o que foge desse espaço. Tal hierarquia não parte de uma “ordem natural das coisas”, mas sim de uma produção sintetizada e mantida por instituições, leis e discursos que determinam quais desejos são aceitáveis e quais precisam ser escondidos, curados ou eliminados. 

Diante dessa realidade, o desejante é invalidado e a origem do desejo — as pessoas trans — é marginalizada. Quando assumir o desejo por uma travesti, por exemplo, se torna motivo de invalidação entre círculos sociais, em especial masculinos, o homem prefere direcionar tal aversão à origem do desejo no lugar de compreender a realidade social que o cerca. Tal movimento produz nas relações íntimas a retirada da subjetividade da travesti. Em alguns contextos, o desejo é escondido a sete chaves; em outros, quando exposto, é justificado como uma “fraquejada” ou até explicado como “quem nunca desejou uma mulher com pau, sem risco de engravidar?”. 

Para o olhar masculino, à la Virginie Despentes, a travesti é um mero objeto de aparência feminina, dotado de um pênis sempre pronto para gozar, existindo apenas para honrar os fetiches mais ocultos de um hominho mequetrefe. O desejo cisheteromasculino, como bem aponta bell hooks, estabelece então uma relação de dominação e, dominada, a travesti se torna posse.

Ela não é um sujeito com história, personalidade e desejos próprios; ela é um território disponível para consumo. O imaginário social reforça tal aversão ao ponto de que, no pior dos casos, ela se expressa em violência verbal, física e sexual contra sua origem. Ou seja, quando o tabu se torna inconveniente — quando a travesti exige ser vista como sujeito, quando cobra pelo serviço prestado, quando ocupa espaços dos quais foi historicamente rejeitada —, o desejo se converte em violência. A travesti é morta como punição por um desejo que, numa mentalidade transfóbica, ela causou. 

Todo esse aprofundamento teórico serve para apontar o que para nós, pessoas trans, é óbvio: o homem que consome pornografia trans em segredo — bem como quem se regozija com piadas que nos degradam — e depois agride ou mata uma travesti não é uma exceção estatística. É um produto direto de um sistema friamente planejado para nos eliminar. A vergonha vira ódio. O ódio vira uma lâmina. E a lâmina encontra um corpo que o Estado, suas instituições e o imaginário coletivo já decidiram, há muito tempo, que não vale a pena preservar.

O que se faz com tal realidade?

Após traçar tal panorama, a questão que resta é: como se muda tal cenário?

É mais do que evidente que não há resposta simples. Em primeiro lugar, porque o debate se estende por diversos recortes sociais além do gênero em si. Como os últimos dados coletados pela ANTRA apontam, 70% das pessoas trans assassinadas em 2025 eram pessoas racializadas — isso, claro, dos casos em que foi possível descobrir a identidade racial da vítima por heteroidentificação post mortem

Dados semelhantes se repetem ano após ano, com o perfil comum das vítimas sendo mulheres trans ou travestis, negras ou indígenas, trabalhadoras sexuais, jovens, em situação de vulnerabilidade social, quase sempre sem moradia fixa e trabalho formal. Qualquer resolução que trate o racismo, o colonialismo, o classismo e a misoginia como meros detalhes está, na prática, traçando uma realidade parcial e conveniente.

É inviável combater a transfobia sem um desmonte interseccional de um sistema que, há séculos, decidiu dividir a sociedade de forma desigual, baseando-se em construtos como raça, classe e gênero — em que o corpo negro, feminino e pobre é o alvo principal.

Em segundo lugar, porque a resolução de uma questão sistêmica não vai nascer meramente da ação individual. É mais do que óbvio que há sim uma importância substancial em examinar o próprio desejo, elaborá-lo de forma saudável e tratar os alvos que o originam enquanto sujeitos.

Contudo, a ação de apenas um punhado de homens não vai ser o suficiente para destituir a estrutura que mói a nossa carne dia após dia. Conscientização é essencial? Claro, mas não é o que alimenta e assegura uma travesti — pois tem quem, infelizmente, nunca vai nos reconhecer como humanas.

Porém, há sim iniciativas individuais que valem a pena ser praticadas. Nesse âmbito, a organização coletiva é uma resposta basal, pois permite transformar o ato individual em pressão contra o sistema.

Cobrar efetivamente os representantes eleitos, apoiar casas de acolhimento e organizações como a ANTRA, usar o trabalho comunitário de forma estratégica, olhar não apenas para os grandes centros urbanos como também para o interior, para as áreas rurais, para as bordas das cidades — gestos necessários que, quando somados a políticas públicas efetivas, têm impacto real na vida de muitas. 

Algumas dessas políticas já têm nome: a criminalização do transfeminicídio como categoria jurídica própria, a regularização do trabalho sexual, iniciativas de acolhimento para pessoas trans em vulnerabilidade social, cotas no mercado formal e no ambiente acadêmico, políticas públicas de saúde e habitação para pessoas trans. Mudanças concretas que modificam a estrutura do cenário — embora uma mudança realmente significativa, cá entre nós, exigiria o desmantelamento do sistema sexo-gênero vigente.

Por outro lado, o que não produz síntese alguma é a tentativa comum de responsabilizar sobreviventes e marginalizar cada vez mais o trabalho sexual, acreditando que a diminuição do consumo da pornografia trans seria, por si só, um avanço. O Brasil não vai parar de nos matar porque parou de nos consumir — até porque isso é inviável dada a nossa conjuntura.

O genocídio vai cessar quando for compreendido que não somos produtos nem segredos a serem escondidos. Somos seres humanos e merecemos ser reconhecidas como tal — estejamos na pornografia ou numa cadeira legislativa. 

Lis Welch (ela/elu) é uma escritora, tradutora e editora premiada que vive no Brasil com sua esposa e cinco gatos. Artivista travesti, autista e fibromiálgica, atua na interseção entre criação artística e engajamento social, com foco na ampliação de espaços inclusivos para pessoas LGBTQIAPN+ e PCD. Sua produção transita entre ficção, não ficção e jogos narrativos, explorando as múltiplas formas do insólito, da ficção especulativa ao cotidiano político, do feminismo aos estudos do imaginário. É autora e colaboradora de obras reconhecidas com os prêmios Goblin de Ouro e Ludopedia. Em 2023, recebeu o D20 Awards de Melhor Conteúdo Informativo de RPG. Seu trabalho é marcado pelo compromisso com narrativas críticas, experimentais e socialmente engajadas. Para mais informações, acesse: liswelch.com.