O Debate sobre a racialização no Trabalho Sexual

Oct 7, 2026
O Debate sobre a racialização no Trabalho Sexual

Vivemos em um país estruturado pelo racismo, em uma sociedade ancorada e pautada pela moralidade. Como é meu primeiro trabalho enquanto colunista, acho mais que justo pedir a bênção para que essa discussão se abra para muitas possibilidades. Laro Yê!

Quando pensamos em trabalho sexual, logo vem à mente um único meio de realização deste: a prostituição, no âmbito da presencialidade. Porém, precisamos ter o entendimento urgente de que o trabalho sexual vai muito além de trocar o ato sexual presencial por dinheiro.

Não que esse método não esteja englobado na definição do conceito de Trabalho Sexual, mas o ponto aqui é ampliar esse conceito para outros meios.

Por exemplo: temos criadores de conteúdo em plataformas digitais, temos quem faz videochamadas, temos quem vende pacotes de fotos com partes específicas do seu corpo… e eu ouso aqui fazer uma abordagem ainda maior.

Se um profissional trabalha com um material específico, se torna um profissional daquela área; pessoas que trabalham com o sexo enquanto matéria-prima são também profissionais do sexo.  Assim, pessoas que trabalham com sexualidade humana, educação sexual, e tudo o que gira em torno desse universo, poderiam muito bem se enquadrar enquanto profissionais do sexo, por que não? 

Bem, tendo levantado esse questionamento, após dar dimensão do que é o trabalho sexual de fato, vamos trazer uma camada super importante e válida no contexto brasileiro: a racialização dentro do trabalho sexual.

Contexto histórico

Precisamos de início ter a consciência de alguns fatos históricos: o Brasil é o país onde a maior parte da população é negra, tendo como fonte o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; é o país onde existe a maior população de pessoas afrodescendentes fora do continente africano; é um país construído racialmente a partir de sangue indígena, africano e europeu.

Tendo essas informações consolidadas, vamos pensar no porquê é imprescindível que falemos sobre essa pauta dentro deste universo. Nosso país tem uma história de marginalização de corpos negros desde que o período escravocrata deu início. Com o fim do processo de escravização aqui no Brasil, foi preciso criar e organizar um sistema que mantivesse a estrutura básica desse período ativa na sociedade.

Assim, começa a operar na sociedade um modus operandi que mais tarde seria conceituado como racismo. O racismo é como se fosse uma atualização do sistema escravagista, que mantém uma dominação tácita de uma camada social, marginalizando, estigmatizando e objetificando determinados corpos que não fazem parte racialmente deste grupo.

Segundo o professor Carlos Moore (2016): O racismo é uma realidade sistémica e não conjuntural. Como tal, ele paira por cima das formações econômicas, paira por cima das religiões, das diferenças de sexo, das orientações sexuais, e por cima de tudo aquilo que você possa evocar. Por quê? E porque o racismo domina todas essas instâncias? Por uma razão muito simples, ele, como sistema, transfere vanta­gens e privilégios concretos e diretos para àquele grupo racial para o qual ele funciona positivamente.

No meio do Trabalho Sexual, temos por vezes muitos relatos de pessoas negras que colocam em pauta o que a intersecção do fato de trabalhar com sexo com o seu atravessamento racial produz de efeitos nocivos para si enquanto indivíduo. Logo, pensando no coletivo, podemos voltar ao período mencionado anteriormente em que ficou estabelecido, enquanto cultura, o legitimar de certas violências quando se trata de pessoas negras.

No período pós-abolição, no Brasil, foi criado um código de moralidade que definia quais seriam as pessoas negras que poderiam frequentar a sociedade mesmo que de forma subalternizada. Logicamente, as que emulassem o modo europeu e cristão seriam as eleitas para esse lugar social que, em certa medida, era uma maneira de afirmar o fim de trezentos anos de ultraviolência para um povo.

Esse código reforçava que pessoas negras deveriam se portar o mais celibatárias possível, pois mostrar qualquer sinal de desejo sexual seria lido como instintos animalescos e selvagens, nada dignos de respeito ou de uma posição social. 

Estilhaços de um espelho quebrado desde este período refletem hoje em nossa sociedade, pois ainda há lascas encravadas nos nossos corpos. Escrevo a vocês, leitores, como um homem negro que trabalha com sexo em vários contextos e lhes digo que, subjetivamente, esse código de moralidade está mais vivo do que nunca em 2026.

Levantar a voz

Pautar as questões voltadas para a racialização no mundo do sexo é de uma importância muito grande e urgente, pois é uma tentativa de romper com velhos estigmas e paradigmas que nos subalternizam e nos adoecem cada vez mais. Ainda hoje, falava com uma amiga sobre uma dada condenação que algumas pessoas como nós sofrem.

Essa é a condenação ao isolamento e, por vezes, a se sentir solitário, pois reivindicamos nossos corpos como nossos! Ter agência sobre si, sobre o seu próprio desejo e sobre reconhecer seus limites e não deixar que o outro os ultrapasse se torna para nós, corpos negros, algo que não é corriqueiro. Esperam docilidade, e em contrapartida nós damos corpos pensantes sobre o que vamos fazer com o que fizeram de nós por muito tempo.

Nos permitir, a nós mesmos, negar a objetificação dos nossos corpos e o empobrecimento de nossas capacidades intelectuais é uma forma de trazer ao mundo que nós, pessoas negras que trabalhamos com sexo, possuímos, sim, uma agência, capacidade de saber os prós e contras do meio em que estamos inseridos e, mesmo assim, agimos e possuímos humanidade.

Uma humanidade buscada por teóricos e teóricas negros e negras há anos. É dizer que nós existimos enquanto sujeitos e vimos no trabalho sexual mais uma porta para termos, dentro dessa sociedade capitalista que nos mata, a oportunidade de produzir fissuras que nos permitem sobreviver e, por vezes, viver fora do lugar que nos é imposto.

Ser uma pessoa negra e trabalhadora sexual é uma interseção que precisa ser analisada por meio de vieses que provavelmente pouco dialogam entre si: relações raciais e teorias da sexualidade. Parto do princípio de que, enquanto pesquisador das Relações Raciais, foi preciso experimentar um gosto amargo do olhar externo, pois soa como se para trabalhar com sexo fosse preciso abandonar a minha negritude e tudo o que já construí enquanto pesquisador e homem negro.

Assim como, entrar com a discussão racializada dentro do universo do sexo afunila as possibilidades de alcance enquanto pesquisa e enquanto produção de conhecimento. Creio que essa seja a parte mais desafiadora e também mais dolorosa, pois são partes que me atravessam e me compõem enquanto sujeito. Ter que anular uma dessas partes para poder falar de um único lugar, me coloca a pensar sobre as múltiplas violências que podem se gerar nesse limbo, pois é também como se não tivéssemos um território lar, onde possamos nos unir e nos cuidar coletivamente.

Novamente o racismo no mundo do sexo e a impossibilidade de tratar essa temática na maioria dos ambientes negros nos deixam à mercê do moralismo e das retiradas de direitos enquanto seres humanos e trabalhadores no tecido social. 

A pergunta que me fica retumbando é: tu, leitor, que estás tendo contato com essa escrita, como tu nos enxergas? Como tu vês tudo isso que te foi apresentado até aqui? Creio ser uma abertura de portas para a ampliação de um diálogo urgente! 

Se tu és uma pessoa branca e estás lendo isso, acho pertinente colocar esse marcador em si a partir de hoje ao ler minha sessão, pois tu, na leitura de cada palavra, serás lembrada disso. Se tu és uma pessoa negra e não estás por dentro do debate sobre o trabalho sexual, peço que te juntes a nós para pensar em teus irmãos e irmãs que fazem parte desse círculo, pois cada vez que dentro de nossa casa essa discussão é esvaziada ou ignorada, facilita para o racismo e outras violências e opressões aumentarem as estatísticas do genocídio do nosso povo.

Meu desejo é que essa reflexão ultrapasse a linha moral na qual fomos construídos e seja colocada no lugar de uma discussão humanitária, onde direitos básicos possam ser garantidos e nossas humanidades sejam reconhecidas.

Existe um Adinkra, uma espécie de símbolo do povo Akan, em África, que se chama Sankofa, e é representado por um pássaro pegando um ovo nas costas, que significa que “nunca é tarde para buscar aquilo de importante que ficou lá atrás”.

Espero que este primeiro passo seja o início de uma jornada em busca de garantia de cuidado e visibilidade para corpos que estão sankofando suas existências no mundo. E que possamos bradar cada vez mais alto que não vamos aceitar o lugar que insistem em nos colocar, e que sim, temos nossa agência perante tudo que se coloca em nossas vidas!

Referencias

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: Identificação étnico-racial da população, por sexo e idade. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

MOORE, Carlos. Literatura e diáspora. Entrevistador: Oliveira. Grau Zero — Revista de Crítica Cultural, v. 4, n. 1, p. 244-253, 2016. Disponível em:https://revistas.uneb.br/grauzero/article/view/3337/2205. Acesso em: 22 set. 2026.

Tiago Rodrigues Da Costa, mais conhecido como Otih, é psicólogo (CRP 07/43505), mestre e doutorando em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS. Além disso, é trabalhador sexual. Trabalha com sexualidade e relações raciais há mais de 10 anos e procura sempre refletir sobre as questões que envolvem os homens Negros gays no universo do trabalho sexual.